Relógios Epigenéticos: quando passámos a poder medir o envelhecimento


Durante muitos anos, a medicina conseguiu intervir sobre os fatores que influenciam o envelhecimento, mas tinha maior dificuldade em medir, de forma objetiva e em períodos relativamente curtos, o impacto biológico dessas intervenções.

Sabíamos que melhorar a alimentação, praticar exercício físico, dormir melhor, controlar fatores metabólicos e reduzir exposições nocivas contribuía para uma vida mais saudável. A genética acrescentou uma nova dimensão, permitindo compreender predisposições individuais e apoiar uma maior personalização de estratégias de prevenção, nutrição ou exercício. Mas permanecia uma pergunta fundamental: estas mudanças estão efetivamente a modificar a forma como aquele organismo está a envelhecer?

Foi neste contexto que surgiram os relógios epigenéticos.

Em 2013, Steve Horvath publicou na Genome Biology um trabalho que se tornaria uma referência na investigação do envelhecimento. A partir de cerca de 8.000 amostras, 82 conjuntos de dados e 51 tecidos e tipos celulares, desenvolveu um algoritmo baseado nos padrões de metilação do DNA em 353 locais CpG, capaz de estimar a idade de diferentes tecidos do organismo. Nascia aquele que ficou conhecido como Horvath Epigenetic Clock. (PubMed)

A grande mudança conceptual foi começarmos a distinguir de forma mensurável a idade cronológica — os anos que passaram desde o nascimento — daquilo a que chamamos idade epigenética, um biomarcador relacionado com processos biológicos associados ao envelhecimento. Estudos posteriores demonstraram associações entre aceleração da idade epigenética, estado de saúde e risco de mortalidade, reforçando o interesse destes biomarcadores na investigação do envelhecimento. (PubMed)

 

Da medicina que intervém para a medicina que mede

É precisamente aqui que reside uma das grandes potencialidades dos testes epigenéticos.

Num plano individualizado de saúde, podemos implementar alterações nutricionais, exercício físico, melhoria do sono, controlo metabólico e outras intervenções sobre o estilo de vida. A avaliação epigenética acrescenta a possibilidade de acompanhar longitudinalmente determinados biomarcadores de envelhecimento, comparando resultados ao longo do tempo e avaliando se a trajetória biológica está a evoluir na direção pretendida.

Isto permite introduzir um conceito particularmente importante na medicina preventiva e da longevidade: medir, intervir, voltar a medir e ajustar.

Os relógios epigenéticos não devem, contudo, ser interpretados como uma previsão isolada de “quantos anos vamos viver”, nem todos os testes ou relógios medem exatamente a mesma dimensão do envelhecimento. Devem ser utilizados como biomarcadores complementares, integrados com a história clínica, avaliação médica, parâmetros metabólicos, composição corporal, capacidade funcional e restantes dados individuais.

A verdadeira revolução está, portanto, menos em conhecer simplesmente uma “idade biológica” e mais na possibilidade de transformar o envelhecimento numa variável que podemos acompanhar ao longo do tempo.

Porque personalizar medicina não é apenas escolher uma intervenção diferente para cada pessoa. É também medir a resposta dessa pessoa e adaptar continuamente o seu plano de saúde.

 

Fonte científica principal

Steve Horvath — “DNA methylation age of human tissues and cell types”, Genome Biology, 2013 (PubMed)

 

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