Quando a Saúde Vira Conteúdo: Nem Tudo o Que Parece Medicina É Medicina
As redes sociais democratizaram o acesso à informação. Mas, quando falamos de saúde, democratizar a informação não pode significar democratizar a competência clínica.
A saúde é provavelmente o bem mais precioso que temos e, por isso, quem comunica, diagnostica, prescreve ou executa determinados atos na área da saúde deve possuir formação, habilitação e competência adequadas.
E os sinais de alerta existem.
A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) tem desenvolvido ações de fiscalização e processos relacionados com estabelecimentos sem o necessário registo ou licenciamento e com publicidade suscetível de induzir os utentes em erro quanto às habilitações e qualificações dos profissionais. A própria ERS determina que a publicidade em saúde deve obedecer a princípios de licitude, veracidade, transparência e completude. (Entidade Reguladora da Saúde)
Mais preocupante ainda é quando pessoas sem habilitação adequada ultrapassam a fronteira da comunicação e passam à prática de atos para os quais não estão legal ou tecnicamente habilitadas. A ERS já tornou públicas situações em que foram recolhidos indícios da prestação de cuidados de saúde por profissional não habilitado, com participação dos factos ao Ministério Público. (Entidade Reguladora da Saúde)
O mesmo princípio de prudência deve aplicar-se aos dispositivos médicos. Laser, radiofrequência, ultrassons e outras tecnologias não se tornam inócuos apenas porque são apresentados nas redes sociais como procedimentos simples. São tecnologias com indicações, contraindicações, parâmetros de utilização e potenciais complicações. O INFARMED é a autoridade competente em Portugal na área dos dispositivos médicos. (Infarmed)
Outro fenómeno preocupante é o das promessas de emagrecimento rápido ou “milagroso”. Não existem soluções universais. O tratamento do excesso de peso e da obesidade exige avaliação clínica e uma estratégia individualizada, que pode integrar nutrição, exercício, intervenção comportamental, terapêutica farmacológica e, quando clinicamente indicada, cirurgia metabólica.
Também importa desfazer um equívoco frequente: a lipoaspiração não é um tratamento para a obesidade nem uma cirurgia destinada a emagrecer. É essencialmente uma técnica de cirurgia de contorno corporal, destinada à remoção de depósitos adiposos localizados e à modelação da silhueta.
Antes de escolher um médico ou uma clínica, o utente deve fazer algo muito simples: verificar. Confirmar quem é o profissional, a sua inscrição e qualificações profissionais e perceber se o estabelecimento está devidamente registado e licenciado para os cuidados que anuncia. A própria ERS determina que, quando um profissional de saúde é mencionado numa mensagem publicitária, devem constar elementos como o número da cédula/carteira profissional e a respetiva entidade emitente. (Entidade Reguladora da Saúde)
Ter milhares de seguidores não é uma especialidade médica.
Uma máquina sofisticada não substitui formação clínica.
E uma promessa extraordinária não substitui evidência científica.
Na saúde, antes de confiar, confirme. Porque influência não é competência — e marketing nunca poderá substituir Medicina.
Fontes institucionais
Entidade Reguladora da Saúde — Manual de Boas Práticas de Publicidade em Saúde
ERS — Perguntas frequentes sobre Publicidade em Saúde
ERS — Processo sancionatório relativo a licenciamento e qualificações profissionais


