Câmaras hiperbáricas: a nova moda da saúde não é tão inofensiva como parece


Nos últimos anos, as câmaras hiperbáricas passaram dos hospitais e das unidades especializadas para clínicas de wellness, recuperação, performance e longevidade. De repente, parece que toda a gente faz tratamentos hiperbáricos.

Mas há uma questão que não pode ser esquecida: uma câmara hiperbárica é um dispositivo médico e a oxigenoterapia hiperbárica é um tratamento médico. Não é apenas uma experiência de bem-estar.

Historicamente associada ao tratamento da doença de descompressão dos mergulhadores, a medicina hiperbárica evoluiu e possui atualmente diferentes aplicações clínicas. O problema não está na tecnologia, mas na sua banalização — sobretudo quando equipamentos são utilizados sem avaliação clínica adequada ou manipulados por profissionais sem formação específica em medicina hiperbárica.

Durante o tratamento, o organismo é exposto a um ambiente pressurizado e, nos protocolos de oxigenoterapia hiperbárica, a elevadas concentrações de oxigénio. A Undersea and Hyperbaric Medical Society (UHMS) considera, para efeitos clínicos, a administração de oxigénio numa câmara pressurizada a 1,4 ATA ou mais, sendo frequentes protocolos terapêuticos que utilizam pressões superiores.

E pressão não é um detalhe. É parte da dose terapêutica — e também parte do risco.

 

Barotrauma: o risco de que pouco se fala

Quando modificamos a pressão à qual o organismo está sujeito, modificamos também o comportamento dos gases existentes nas suas cavidades.

É aqui que surge uma das complicações mais conhecidas da medicina hiperbárica: o barotrauma.

O barotrauma é uma lesão provocada por uma diferença de pressão entre uma cavidade do organismo que contém ar e o ambiente exterior, quando o organismo não consegue equalizar adequadamente essa pressão.

Pode afetar sobretudo o ouvido médio e os seios perinasais, mas também o ouvido interno, os dentes e, mais raramente, os pulmões.

O barotrauma do ouvido médio é uma das complicações mais frequentes da oxigenoterapia hiperbárica. Pode provocar dor intensa, sensação de pressão ou ouvido bloqueado, hemorragia e lesão ou perfuração da membrana timpânica. Em situações mais graves podem surgir alterações auditivas ou vestibulares, cuja recuperação pode ser mais complexa.

Importa, contudo, não criar alarmismo: a maioria dos episódios descritos é ligeira. O risco pode ser reduzido através de seleção adequada dos doentes, avaliação clínica, técnicas corretas de equalização, controlo da velocidade de pressurização e acompanhamento por profissionais devidamente preparados.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 encontrou maior frequência de eventos adversos com pressões superiores a 2,0 ATA, reforçando a importância de adequar pressão, duração e número de sessões a cada pessoa e indicação clínica.

E o risco não se limita ao barotrauma. Estão também descritos toxicidade do oxigénio, alterações visuais transitórias, ansiedade ou claustrofobia e, mais raramente, complicações neurológicas ou pulmonares.

 

 

Nem tudo o que se chama “hiperbárico” é equivalente

Existe ainda o problema inverso.

Com a crescente popularidade destes tratamentos, começaram a surgir equipamentos comercializados como câmaras hiperbáricas que funcionam com pressões relativamente baixas, inferiores às utilizadas em muitos dos protocolos clínicos estudados.

Respirar oxigénio dentro de uma câmara ligeiramente pressurizada não significa necessariamente estar a receber uma dose equivalente à oxigenoterapia hiperbárica utilizada em medicina.

Pressão, concentração de oxigénio, duração da exposição, número de sessões e indicação clínica fazem parte da dose terapêutica.

Por isso, mais pressão não significa automaticamente melhor tratamento — mas pressão insuficiente também pode significar que não estamos a reproduzir o tratamento sobre o qual existe determinada evidência científica.

É fundamental perceber exatamente que equipamento está a ser utilizado, a que pressão trabalha e qual o protocolo aplicado.

 

Então, quais são os benefícios?

Quando existe indicação clínica, equipamento adequado e um protocolo corretamente definido, a oxigenoterapia hiperbárica permite aumentar significativamente a disponibilidade de oxigénio nos tecidos.

Esse aumento da oxigenação pode favorecer mecanismos relacionados com angiogénese, atividade dos fibroblastos, síntese e deposição de colagénio, modulação da inflamação e reparação dos tecidos.

Entre as aplicações reconhecidas da medicina hiperbárica encontram-se a doença de descompressão, embolia gasosa, intoxicação por monóxido de carbono, determinadas lesões provocadas por radiação, algumas infeções graves, lesões por esmagamento, feridas complexas selecionadas e determinados enxertos e retalhos comprometidos.

 

O interesse crescente no pós-operatório

Uma das áreas particularmente interessantes é a utilização da oxigenoterapia hiperbárica como terapêutica complementar no período pós-operatório, especialmente quando existe compromisso da oxigenação ou viabilidade dos tecidos.

Ao aumentar a disponibilidade de oxigénio, pode contribuir para favorecer a cicatrização, estimular mecanismos relacionados com a formação de novos vasos sanguíneos e apoiar os processos de reparação tecidular.

Na cirurgia plástica e reconstrutiva, esta utilização pode ser particularmente relevante perante enxertos ou retalhos comprometidos, situações nas quais existe evidência para o benefício da oxigenoterapia hiperbárica como terapêutica adjuvante.

Pode, assim, contribuir, em situações selecionadas, para uma recuperação pós-operatória mais favorável, melhor viabilidade dos tecidos e melhor evolução do processo de cicatrização.

É importante, no entanto, distinguir este efeito da promessa indiscriminada de “cicatrizes menores”. A aparência final de uma cicatriz depende da técnica cirúrgica, genética, tensão dos tecidos, infeção, exposição solar, tabagismo, estado nutricional e muitos outros fatores. A evidência da medicina hiperbárica é mais consistente em determinadas situações de compromisso tecidular do que na utilização rotineira depois de qualquer cirurgia estética.

 

E na recuperação muscular?

A medicina desportiva é outra das áreas em que existe crescente interesse.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, incluindo 10 estudos e 299 participantes, encontrou evidência de que a oxigenoterapia hiperbárica pode acelerar a recuperação da lesão muscular induzida pelo exercício, embora não tenha demonstrado benefício equivalente relativamente à dor muscular pós-exercício.

Existem ainda estudos sobre a utilização da terapêutica hiperbárica na recuperação de atletas, traumatismos dos tecidos moles e determinadas lesões musculoesqueléticas. Os resultados são promissores em alguns contextos, mas não justificam considerar a câmara hiperbárica um tratamento universal para qualquer lesão desportiva.

Dentro de um programa médico estruturado, a oxigenoterapia hiperbárica pode, portanto, ter particular interesse na recuperação pós-operatória, cirurgia plástica e reconstrutiva em situações selecionadas, recuperação de determinadas lesões musculares, medicina desportiva, feridas complexas e situações específicas de compromisso da cicatrização ou oxigenação dos tecidos.

 

No CIM, a segurança vem antes da pressão

No CIM – Centro de Inovação Médica, partimos de um princípio simples: quanto mais sofisticada é uma tecnologia médica, maior deve ser a exigência na forma como é utilizada.

As câmaras hiperbáricas são integradas em protocolos clínicos individualizados e acompanhados por profissionais especializados, permitindo avaliar indicação, contraindicações, pressão utilizada, duração e resposta de cada pessoa ao tratamento.

Além disso, o equipamento utilizado no CIM integra uma solução tecnológica patenteada, desenvolvida especificamente para aumentar a proteção relativamente ao risco de barotrauma, acrescentando uma camada adicional de segurança ao tratamento.

É esta combinação entre medicina, tecnologia, inovação e acompanhamento clínico que permite utilizar uma ferramenta extraordinariamente interessante sem a transformar numa solução universal.

Porque não basta entrar numa câmara e respirar oxigénio.

É preciso saber quem deve entrar, porquê, a que pressão, durante quanto tempo e com que nível de segurança.

A medicina hiperbárica pode ser uma extraordinária ferramenta terapêutica.

Mas continua a ser medicina. Não é uma moda.

 

Fontes científicas

European Committee for Hyperbaric Medicine — European Consensus Conference
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6147240/

Systematic review and meta-analysis — adverse effects of hyperbaric oxygen therapy
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37275378/

Barotrauma e complicações da oxigenoterapia hiperbárica
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31051054/

Complications and side effects of hyperbaric oxygen therapy
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10685584/

Oxigenoterapia hiperbárica e recuperação muscular — revisão sistemática e meta-análise, 2026
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40784513/

Undersea and Hyperbaric Medical Society — Hyperbaric Oxygen Therapy
https://www.uhms.org/

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